Por que passei a cobrar por palestras e minicursos

Captura de tela de 2015-11-21 17:46:12

Olá meus amigos,

 Cheguei  a 100 palestras oficiais e para comemorar esse número tão especial decidi escrever um pouco sobre o motivo que me levou a cobrar pelas atividades que até pouco tempo eu fazia “na faixa”.

Apresentação da face de São Martinho de Porres na Basílica do Santíssimo Rosário em Lima, Peru
Apresentação da face de São Martinho de Porres na Basílica do Santíssimo Rosário em Lima, Peru

Um pouco de história

 A primeira vez que que me convidram a palestrar foi no ano de 2006, no entanto, naquela época eu me comportava de modo muito diferente. A única grande viagem que tinha feito foi de Santa Catarina até Sinop-MT, isso em 1987 e não sai de lá até 1992 qundo viajei para a capital Cuiabá. Minha vida era rodeada de medo e insegurança, inclusive com episódios de síndrome do pânico que me acometiam vez ou outra.

 O convite, em 2006, partiu de um organizador de eventos e entusiasta de software livre, o Aleksandro Montanha. Como eu estava na fase dos grandes temores decidi declinar da oferta. Felizmente ele foi teimoso e renovou o convite em 2007. O universo conspirou a favor do início de minha carreira de palestrante, pois naquela época eu estava em viagem ao sul do Brasil, 19 anos depois de lá sair. Decidi então aceitar mais esse desafio.

 Tudo não poderia dar mais certo, a casa estava lotada e apresentação foi um sucesso. Um fato que me marcou bastante, além do poder de visão do Sr. Montanha, foi um texto escrito pelo célebre Cesar Brod, onde este elogiou-me pela performance frente ao público. Daquele momento em diante não parei mais.

 Sempre encarei as palestras como uma forma de apoiar o software livre e de código aberto, levando o seu nome e angariando novos usuários por onde quer que eu proferisse uma fala. O tempo foi passando e a média anual de eventos aumentando. Em 2009, graças a um convite vindo do mesmo César Brod já citado, tive a honra de participar da Latinoware, o evento ativo que tenho mais carinho. Além da Latinoware tenho que citar outros aos quais sou constantemente convidado e que para minha pessoa são estratégicos: FISL, Campus Party e Comtel.

 Adoro palestrar e mais do que isso, adoro ensinar as pessoas a trababalharem com computação gráfica. O problema é que junto com o aumento da média anual de eventos, aconteceu também uma redução do meu tempo para dedicar-me as minhas atividades profissionais.

Workshop de modelagem 3D para iniciantes. Campus Party México. Guadalajara, Jalisco.
Workshop de modelagem 3D para iniciantes. Campus Party México. Guadalajara, Jalisco.

Os motivos

 Em 2013 a coisa estava muito boa, foi o ano em que os reconhecimentos oficiais começaram a acontecer. Recebi moção de palauso, prêmio científico, publiquei artigos e tive a alegria inefável de ser pela primeira vez o keynote da Latinoware. A situação começou a ficar realmente caótica em 2014, quando sem saber, reconstruí a face de Santo Antônio de Pádua e pela primeira vez apareci em uma matéria veiculada no programa dominical Fantástico, além de inúmeras outra emissoras nacionais e internacionais.

 A princípio a elevação do número de atividades não me incomodou, pelo contrário, tudo era muito divertido e inspirador. Mas aos poucos o cansaço, a tristeza e a falta de tempo começaram a vencer a batalha. Pus-me a pensar se tudo aquilo realmente valia a pena, e mais, tentava achar o motivo de estar envolvido em tantas atividades.

 O ano de 2015 foi mais intenso ainda, tive a sorte grande de aparecer em duas matérias em dois finais de semana consecutivos no Fantástico (12/07 — e — 19/07), algo impensável há tempos atrás. Além das atividades nacionais, fui convidado a uma série de palestras internacionais, agora mesmo, estou escrevendo esse documento em um voo com destino a Lima, no Peru, onde ficarei alguns dias apresentando a face de mais um santo católico, ministrarando treinamento e compartilharando as minhas experiências com computação gráfica.

Tem uma lado muito bom e positivo em se envolver com esse tipo de atividade e as vantagens são bem evidentes: você se torna popular, converte-se em uma referência no setor, conhece muitos lugares e pessoas diferentes que lhe transformam em um indivíduo melhor, passa a fazer parte de programas de fidelidade que lhe oferecem uma série de facilidades e tantas outras situações igualmente agradáveis. No entanto há um outro lado mais sombrio: você fica constantemente distante de quem ama, não consegue seguir uma rotina saudável de alimentação e descanso, participa de alguns eventos que lhe tratam de forma pouco digna, treina e fala para pessoas que não estão realmente interessadas no assunto.

 Quando eu estava no início da carreira, enxergava apenas o lado positivo e ignorava o negativo. A minha motivação era tão grande que tudo parecia insignificante. Mas o tempo foi passando e a paciência exaurindo-se. Hoje muito raramente aceito ministrar um minicurso não remunerado, simplesmente não tenho mais aquela resignação de explicar pormenorizadamente as coisas, a menos que eu receba por aquilo. Não é maldade ou falta de vontade, se isso fosse verdade eu não teria escrito tanto material didático e, inclusive, um ebook gratuito de 424 páginas destinadas a iniciantes. No final, o que cobro é um valor irrisório, R$ 250,00 a hora/aula para uma turma de até 22 alunos, o que dá R$ 11,36 a hora/aula para cada um, uma merreca como diriam.

 Quando comecei a cobrar pelos cursos muita gente torceu o nariz e algumas dessas pessoas foram até ríspidas comigo. Uma vez recebi um convite muito cordial de um evento de software livre onde eu ministraria uma palestra e um minicurso. Aceitei palestrar sem custos adicionais, mas expliquei ao organizador que o minicurso teria um custo, naquela época inferior ao valor apresentado acima. O segundo e-mail que recebi foi muito mal educado, escrito de qualquer jeito e com claros sinais de que a pessoa estava incomodada. Como se fosse indigno eu cobrar por aquilo, já que estava recebendo a honra de ir para o local com os custos arcados pela instituição promotora.

 Realmente é uma honra, mas se o orgnizador pensa em não dispender numerário para as atividades, talvez a melhor saída seja dar uma força para quem está começando, a exemplo do que fez o Sr. Montanha comigo. Isso colocaria mais pessoas no mercado e renovaria o quadro de profissionais que atuaa nele.

 Para a minha surpresa, conforme o tempo foi passando, tive cda vez menos problemas em falar de custos relacionados a minicursos. O fato é que fui obrigado a que fazer o mesmo com as palestras. Ainda que as instituições paguem parte considerável dos custos como bilhetes aéreos, hotel, alimentação e deslocamento, mesmo assim eu gastava um dinheiro considerável por ano, se juntasse tudo o que eu despendia durante as viagens. Além disso existem outros pontos a serem observados. Quando viajo não consigo controlar os ingredientes da minha alimentação. Não consigo manter uma rotina de exercícios, não consigo dormir direito, não consigo trabalhar direito. Minha produtividade é reduzida drasticamente. Então, a questão não é apenas o gasto evidente com dinheiro, mas o que eu deixo de ganhar nos períodos de atividades longe de casa.

Em face disso, estipulei o valor de R$ 1.250,00 por uma palestra de mais ou menos 1h30m. Algumas pessoas acham caro, mas realmente não é. Se o evento cobrar pela entrada e encher uma sala esse valor se torna homeopático. Se o evento não cobra, os organizadores poderm ir atrás de patrocínio. Se ainda assim acharem que não funcionaria, fica claro que eu não sou a pessoa certa para o evento. Volta novamente a situação de darem uma chance a outro indivíduo que possa suprir essa demanda de conhecimento. Como educador, acredito piamente que existem milhares de pessoas que possam fazer isso só no Brasil.

 Existe ainda uma outra situação. Os organizadores não tem a possibilidade de pagarem os bilhetes aéreos, demais gastos e mais os custos da palestra. Daí propoem que eu grave uma videoconferência ou que a faça online. Pois bem, o custo do trabalho serão os mesmo R$ 1.250,00. E por que isso? Simples, eu não gosto de fazer videoconferênia da mesma forma que eu ministro uma palestra. Se eu montar um material de uma hora as pessoas simplesmente vão dormir! O que faço é criar um vídeo de uns 15 minutos e editá-lo como se fosse um misto de palestra e matéria jornalística. Além disso o material é customizado com os dados do evento, agradecimento aos patrocinadores e etc. O valor é bastante acessível.

 Se a pessoa ainda achar que não é o bastante, ela tem a opção de escolher dentre uma série de palestras que ministrei no FISL, na Campus Party e outros eventos que tem a tradição de gravar as atividades.

Conclusão

 O objetivo desse post é esclarecer minha postura em relação as atividades e o quanto isso é importante para que eu continue fazendo o que gosto, mantendo a dignidade e a capacidade de prover o pão de cada dia que pousa sobre a minha mesa.

 Cobrar por um serviço não é uma realidade reprovável, ao contrário, é a afirmação de que aquela atividade tem um valor e ainda que esse valor muitas vezes não seja compatível com a real importância de tudo aquilo, pelo menos motiva o agente provedor a continuar evoluindo e oferecendo um serviço melhor ou, ao menos, mantendo a qualidade do que é oferecido.

Dito isto, agradeço a sua atenção e deixo aqui o meu grande abraço. Até a próxima!

 


13 thoughts on “Por que passei a cobrar por palestras e minicursos

  1. Dalai Felinto

    Cícero, sábias palavras. Me admira você encontrar tanta resistência dentro do meio para sua compensação profissional.

    Acho inclusive que adotar essa postura profissional colabora para o software livre. No momento em que o que você quer transmitir tem apelo para o público por si só, independente da natureza das ferramentas usadas, você comprova a efetividade das mesmas.

    Poia bem, parabéns pela clareza, e boa sorte em suas próximas 100 palestras 😉

  2. Rui Ogawa

    Grande Cícero! Uma vez eu disse que o software é livre, aberto e gratuito, mas o trabalho não. É preciso compreender o ecossistema do mundo SL e perceber que seu sustento é o seu trabalho. Nada mais justo que cobrar pelo seu belíssimo trabalho. Além disso, você carrega consigo a vontade, o desejo e o empenho em ensinar de verdade. Só não vê quem não quer ou não te conhece. Parabéns pela atitude!

  3. Rodrigo Mourão

    Meu caro eu não lhe conheço, aliás não lhe conhecia mas saiba que você ganhou um novo fã. Sou palestrante desde 2007 e você está absolutamente certo, me identifiquei quando diz que as vezes falamos para um público que não quer nos ouvir e para nós que amamos noque fazemos isso é pior do que um murro. Já diz a Bíblia: digno e o obreiro do seu salário, então na mais justo do que receber pelo trabalho realizado, não fazemos pelo $$$, fazemos porque amamos e os que de fato sabem reconhecer nosso trabalhar não se oporão a isso.

    Bem lhe desejaria sorte mas aprendi com meu avô que isso desejamos aos medíocres, aos competente desejamos SUCESSO!

  4. Adell

    Eu acho um absurdo você cobrar qualquer valor!

    Você não tem o menor direito de cobrar um centavo sequer, afinal quando vai ao mercado você pode simplesmente dizer:
    Sou o cara do fantástico! Reconstruo faces de cranio
    Com esta frase você poderá pegar o que quiser sem pagar nada! Sua roupas são impressas naquela impressora 3D (que também ganhou de presente na rua de um amável desconhecido), comida? Não nerds vivem apenas de tecnologia, internet? Ela magicamente chega até nos vinda do éter!

    Eu sinceramente não sei como tem coragem de cobrar para ir apenas falar!

    Grande abraço!

  5. Kell Bonassoli

    Cícero, sua atitude não tem nada de reprovável. É uma evolução natural de quem acaba agregando como palestrante profissional. Existem pessoas que de tão bem sucedidas deixam novamente de cobrar e passam a usar o critério de só palestrar em ocasiões em que sintam prazer e alegria de ensinar. Espero que você voe alto e chegue a esse ponto. Sucesso. Você merece.

  6. Pedro Henrique

    Caramba, parece que foi ontem que estava assistindo aquela palestra sobre um programa ate então desconhecido por mim, o BLENDER, e eu no segundo ano da faculdade fique aficionado pelo Blender. Ai pensei, já que estava lá porque não realizar o convite para o palestrante participar do primeiro evento que realizaríamos do nosso curso. Seria a 1° Tecnoweek, e para minha surpresa você aceitou. Parabéns Cicero, você merece tudo oque tem conquistado e irá conquistar ainda.

    Obs: Realizamos neste dias 17/11 a Sétima Tecnoweek, espero que futuramente possa estar presente.

  7. George Mendonça

    Cícero você é um exemplo, abra caminhos para os colegas e ainda divulga. Siga em frente, quem te conhece, sabe que você é um mega profissional e um grande ativista de software livre!

  8. João Felipe

    Bom, acredito ser um pouco contraditório o ato de cobrar por palestras de software livre. Talvez, você não tenha entendido o que é software livre, ou talvez esteja tentando torná-lo proprietário. Se você é tão famoso quanto explicita, não seria natural continuar a palestrar de graça? Afinal, o que são irrisórios R$ 1 250,00 para uma palestra comparados ao que você pode influenciar? Quantas empresas e outras entidades poderiam se beneficiar da sua influência e desejar te patrocinar? Pense nisso.

  9. Lucas Teske

    Muito bom Cícero! Sempre te admirei muito e continuo te admirando.

    Eu concordo com você em todos os pontos, e acho que deva cobrar sim.

    Um ponto adicional a cobrança, é que existe o fato de que no momento em que você se desloca (geralmente por alguns dias) para um evento que queiram a sua palestra, há também o tempo que você poderia estar trabalhando em alguma outra coisa, e esse tempo tem um custo.

    Certamente se eu estivesse no seu lugar, eu também estaria cobrando pelas palestras e minicursos.

    De qualquer forma, parabéns pelo sucesso e por manter sua integridade mesmo em situações as quais as pessoas não foram tão cordiais quanto esperado.

  10. Leandro Spanghero

    Parabéns pela coragem, sou professor de programação de informática em uma escola técnica, sou entusiasta linux e sou apaixonado pelo tema motivação. Vez ou outra ministro palestras com este tema em minha escola, queria eu, ter a coragem de cobrar por minhas palestras fora da escola, sei que são boas e com conteúdo incrível como as suas, obrigado pelo esclarecimento, um grande abraço fique com Deus!!!

  11. Fabiano Kuller

    Parabéns Cícero, é muito justo cobrar pelo seu trabalho pois não foi da noite para o dia que adquiriu todo su conhecimento, então merece receber por suas apresentações, afinal de contas temos no Brasil ex-presidente cobrando R$ 250.000,00 pra falar meia hora de besteiras e mentiras.

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