A reconstrução e a apresentação do “vampiro” tcheco

Captura de tela de uma notícia veiculada em blog japonês acerca da reconstrução facial

No final de outubro de 2016 recebi uma curiosa mensagem no meu canal do YouTube. Uma empresa tcheca de digitalização 3D se mostrou interessada nos meus trabalhos de reconstrução facial e pediu que eu entrasse em contato com eles o mais rápido possível.
Lepidamente redigi um e-mail colocando-me à disposição para o que eles precisassem, caso a solicitação fosse compatível com as minhas parcas habilidades. A resposta veio pelas mãos da especialista em arqueologia geográfica Eva Stuchlíková, foi-me proposto entrar em um projeto que pretendia trazer de volta à vida a face de um homem que morrera há muitos séculos atrás. Tratava-se de um pedido assaz peculiar… eu deveria reconstruir a face de um… vampiro… o Vampiro de Čelákovice!

Antecedentes horripilantes

No ano de 1966 um senhor estava trabalhando na ampliação de uma galpão em sua propriedade localizada na zona rural de Čelákovice, cidade tcheca que se ubica a 25 Km de Praga, a capital daquela nação.


Pouco depois de iniciarem uma escavação, necessária para a colocação de um pilar, os construtores se depararam com o que parecia ser um crânio humano. Temerosos de que se tratava do produto de um crime, eles informaram o fato ao proprietário da casa e este acionou a polícia que não demorou a aparecer.
Ao observar os restos mortais, o oficial descartou a probabilidade de se tratar de um evento contemporâneo a geração de todos os vivos que se encontravam na cena e passou o contato de um conhecido arqueólogo local.


O especialista em questão era o Sr. Jaroslav Špaček que para a infelicidade do dono da propriedade e dos construtores ansiosos por receberem seus ordenados, interrompeu a obra e iniciou o processo de escavação. Para o espanto de todos os moradores da cidade, ele encontrou não apenas um indivíduo, mas 14 no total e todos do sexo masculino. Mais assustador ainda foi a constatação de que nenhum deles havia padecido por morte natural.
E se você, caro leitor, acha que a coisa parou por aí, os detalhes horripilantes brotavam na mesma velocidade que os corpos eram desenterrados. Alguns deles encontravam-se com as cabeças decepadas, com as faces voltadas para o chão e com as mãos aparentemente amarradas… denotando claros sinais de vampirismo!

A ciência revela a história

A fama dos vampiros de Čelákovice correu o mundo e basta uma busca no Google juntando vampiro e o nome da cidade, para que desponte uma série de imagens assustadoras, protagonizadas por esqueletos desmembrados ou criaturas com os caninos sobressalentes.
Para encurtar o mistério, foi justamente um daqueles 14 crânios encontrados que chegou ao meu poder, digitalmente falando é claro, através de um projeto idealizado pelo Museu de Čelákovice.
A mostra entitulada “Haviam vampiros em Čelákovice” fora idealizada pela arqueóloga Dana Klírová e abordaria os 50 anos de pesquisas envolvendo aquele enterros inusuais, contemplando as descobertas efetuadas ao longo de meio século e como, uma a uma, as hipóteses de vampirismo foram caindo até afirmarem-se as evidências de que aquela região fora na verdade um cemitério destinado a párias, ou seja, excluídos sociais.


O museu deixou a cargo da empresa GEO-CZ a responsabilidade pelos trabalhos gráficos envolvendo a mostra e levantou-se a ideia de fazer a reconstrução da face de um dos célebres “vampiros”. O proprietário, o Sr. Jiří Šindelář e a especialista Eva Stuchlíková fizeram uma busca na internet atrás de especialistas em reconstrução facial e chegaram ao meu nome. O contato foi feito e acordou-se a entrega dos trabalho em alguns dias, posto que a data limite para a finalização dos painéis se aproximava a passos rápidos.

 O crânio me foi enviado, mas sem os detalhes antropológicos de sexo, idade e ancestralidade. Como o prazo era curto, pedi à equipe se eu poderia repassar o modelo a um especialista em odontologia forense para que essas informações fossem confirmadas. Uma vez que eles me permitiram, acionei meu parceiro de pesquisas, o Dr. Marcos Paulo Salles Machado e lhe inquiri se era do interesse dele analisar um crânio às cegas. Como bom profissional ele aceitou prontamente e sem nenhuma informação prévia aferiu os seguintes dados: homem, 30-40 anos, europeu. Dentro de poucos dias os trabalhos foram finalizados.

Projeção na Mídia

Quando recebi a proposta do pessoal da república tcheca eu me coloquei à disposição para confeccionar a aproximação facial desde que pudesse converter os trabalhos em notícia por via da imprensa. Como o museu aceitou, enviei os dados do projeto à repórter Janet Tappin Coelho que compôs um amplo texto abordando todos os aspectos que envolviam a reconstrução do “vampiro”.

Toque para trocar de imagem – Captura de tela de matérias em 13 idiomas

A notícia saiu antes da inauguração da mostra e não sem motivo, a exemplo do que aconteceu na Itália com a face de Santo Antônio, o intuito de soltar a matéria era chamar a atenção da população para que fosse ao evento.

Toque para trocar de imagem – Matéria de capa – páginas da revista tcheca Koktejl

As primeiras notícias foram veiculadas em dois grandes periódicos ingleses, THE SUN e  THE MIRROR. Rapidamente a matéria foi traduzida em vários idiomas, segundo a contabilização final esse número chegou a 13 (Alemão, Árabe, Chinês, Cingalês, Eslovaco, Húngaro, Inglês, Japonês, Persa, Português, Russo, Tcheco e Vietnamita).

A inauguração da mostra

No dia 11 de novembro de 2016 a mostra foi inaugurada. A população compareceu em peso na vernissage promovida pelo museu e teve até uma apresentação de música de época!Logo após as apresentações iniciais e um farto coffeebreak as portas da mostra foram aberta aos convidados.

Toque trocar trocar de foto – Fotos da vernissage em Celakovice

Čelákovice é uma cidade pequena, de 11.000 habitantes, mas o trabalho que fizeram foi grande, principalmente em seu capricho, com painéis escuros pontuados por infográficos, fotos e elementos folclóricos o evento contou, de forma clean e didática o desenrolar de 50 anos de pesquisas que transformaram uma série de vampiros em cidadãos punidos pela indiferença e talvez, do ódio social da época. Talvez os responsáveis originais daquele cemitério estavam mais próximos de serem vampiros, do que aqueles 14 homens que lá foram enterrados.

Guardadas as realidades históricas, o que me marcou neste trabalho foi a capacidade de projetos como esses catapultarem elementos culturais locais para o mundo inteiro. É o que sempre digo, algo assim só é possível com a participação de uma série de pessoas, cada um dando o melhor de si para que tudo se efetive. Sou grato àqueles que me convidaram a fazer parte disso e também agradeço o esforço grupal que foi peça chave para esse tremendo sucesso.


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